François Cevert nasceu em 25 de fevereiro de 1944, em um Paris marcado pela ocupação, descendente de família judia russa — seu pai, Charles Goldenberg, teve participação ativa na Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial e precisou adotar o sobrenome materno, Cevert, para proteger a família das perseguições . No entanto, mesmo diante das adversidades, François desenvolveu uma paixão avassaladora pelo automobilismo desde jovem. Ele dirigia motos e carros já na adolescência, chegou a frequentar a escola de pilotagem de Montlhéry, embora o pai preferisse que ele seguisse carreira na joalheria, ramo da família .

Sua trajetória nas pistas começou com o apoio escasso, mas com tanta persistência que ele chegou a reunir recursos vendendo discos educativos e roupas — inclusive com o apoio da irmã Jacqueline — para financiar sua participação no Volant Shell, importante competição de descoberta de novos talentos . Em 1968, Cevert foi campeão francês de Fórmula 3, mesmo competindo como piloto privado e enfrentando problemas técnicos, como uma falha na caixa de fusíveis. Sua vitória decisiva veio na última etapa do campeonato, quando superou Jabouille e conquistou o título em Albi .

Reconhecido por sua beleza, carisma e vida social intensa — o que lhe rendeu o apelido de “Le Prince” nos meios de comunicação —, Cevert atraiu a atenção não apenas pelo talento, mas também pelo estilo . Sua grande virada veio ao ingressar na equipe Tyrrell como companheiro de Jackie Stewart em 1970, após o inesperado abandono de Johnny Servoz-Gavin. Foi Stewart quem se tornou seu mentor, e Cevert passou a chamá-lo de “o Maestro”, demonstrando respeito e admiração recíprocos .

Foto:Getty Images

Em 1971, ao volante da Tyrrell 002, equiparada à de Stewart, Cevert conquistou seu primeiro pódio — um duplo sucesso da Tyrrell no GP da França — e, mais tarde, sua primeira e única vitória na Fórmula 1, no GP dos EUA em Watkins Glen. Ele se tornou apenas o segundo francês a vencer um GP de F1, após Maurice Trintignant .

Infelizmente, essa vitória antecipou a tragédia que viria. Em 6 de outubro de 1973, durante os treinos para o GP dos EUA em Watkins Glen, Cevert sofreu um acidente fatal nas “esses do Club House”. Ele perdeu o controle, seu carro saiu da pista, capotou e colidiu violentamente contra as barreiras . Um episódio ainda mais comovente foi o relato do próprio Cevert, momentos antes: “ele notou que era dia 6, seu carro era o número 6, e o motor Ford Cosworth era o 066… achou que era seu dia de sorte, a ocasião perfeita para conquistar sua primeira pole position” .

O fim precoce de sua carreira deixou Jackie Stewart profundamente abalado. Stewart cancelou sua participação no GP dos EUA e encerrou a temporada antes do previsto. Posteriormente, o piloto escocês revelou uma lembrança comovente: seu filho presenteou-os com o disco da Sonata Pathétique de Beethoven, peça favorita de Cevert, como se fosse uma mensagem enviada pelo próprio amigo — um símbolo da ligação emocional entre os dois.

As homenagens foram inúmeras: seus funerais em Paris reuniram grandes figuras do automobilismo e do showbiz, com a presença de companheiros de pista e da própria comunidade automobilística. O velório foi marcado por emoção intensa, com Beethoven sendo tocado durante a cerimônia. Anos depois, sua memória continua viva: escolas, ruas, praças e até desenhos em capacetes de pilotos mais recentes — como Jean-Éric Vergne e Pierre Gasly — trazem sua imagem como tributo .

François Cevert permanece uma figura lendária no automobilismo: talentoso, carismático e tragicamente breve, mas eternamente lembrado como “O Príncipe” de uma era de ouro das corridas.