A história de Gabriel Bortoleto na Fórmula 1 é quase inédita: o jovem estreante da Sauber é não apenas gerenciado por Fernando Alonso, mas também seu maior orgulho na pista. O espanhol, duplamente campeão mundial, viu no brasileiro uma estrela em ascensão — campeão consecutivo de Fórmula 3 e Fórmula 2 — e decidiu acompanhá-lo de perto. A carreira de Gabriel mudou radicalmente graças ao apoio decisivo de Alonso há alguns anos: “Ele me ajudou e me ensinou muito. Posso contar com ele”, diz o brasileiro, reconhecendo o papel crucial do espanhol em sua trajetória.
A conexão entre os dois começou de modo quase casual: em julho de 2022, Lincoln Oliveira, pai de Gabriel, cruzou com Alonso no autódromo Red Bull Ring e, aproveitando a oportunidade, falou sobre a dificuldade de seu filho em garantir uma vaga na Fórmula 3 de 2023. Instigado pela situação, o piloto espanhol interveio com a equipe Trident e garantiu o cockpit para o jovem brasileiro — um gesto que se revelou decisivo para seu futuro.
Três temporadas depois, no mesmo circuito austríaco, Bortoleto finalmente pontuou na Fórmula 1 ao terminar a corrida em oitavo lugar, recebendo o título de “piloto do dia” pelos fãs. Nesse momento marcante, Alonso o abraçou emocionado no paddock, numa cena incomum para dois concorrentes — o espanhol comemorou com o brasileiro e foi até levantá-lo em demonstração de carinho e orgulho.
A parceria entre os dois transcende as funções tradicionais de piloto e gestor: Gabriel enxerga em Alonso um mentor, enquanto o espanhol vê no brasileiro um tipo especial de “filho espiritual”. “É maravilhoso ver a carreira de Gabriel até aqui”, afirmou Alonso. “Na A14, estamos muito orgulhosos dessa parceria. Ajudarei o quanto puder com minha experiência na pista, preparo, abordagem de fim de semana de corrida, marketing, gestão de energia… todas essas coisas”. A influência de Alonso já dá frutos: nos quatro últimos Grandes Prêmios, Gabriel pontuou três vezes com sua discreta Sauber, ultrapassando inclusive o ritmo de seu experiente companheiro Nico Hülkenberg.
No último fim de semana em Hungaroring, Gabriel conquistou o melhor resultado de sua carreira ao terminar em sexto — novamente logo atrás de Alonso. Os muitos momentos em que os dois dividiram as curvas serviram como laboratório: “Ele está sempre pressionando, não comete erros, o tempo todo te coloca sob pressão”, elogiou Alonso. “É o melhor piloto de sua geração. Sempre disse isso, e ele provou em condições de igualdade. Se fosse inglês e tivesse terminado em sexto com uma Sauber, estaria na capa de todos os jornais. O que está fazendo é excepcional. Espero que as pessoas percebam isso”.
O mundo, de fato, começa a notar. E com um apoiador como Fernando Alonso, o caminho de Gabriel não tende a mudar. Depois de um início difícil — ele foi o único dos cinco pilotos novatos a não participar dos testes de pré-temporada com o carro anterior —, o brasileiro mostrou resiliência. “É a melhor forma de terminar a primeira parte da temporada e entrar de férias”, disse ele após a corrida na Hungria. Se seguir nesse ritmo, Bortoleto não será apenas um protegido de Alonso: será seu herdeiro nas pistas.
